Como lidar com a própria morte…

… e com a de entes queridos. Novo livro da geriatra Ana Claudia Quintana Arantes tem sugestões para se preparar para essas situações dramáticas

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Encarar a morte não é uma tarefa fácil. Mesmo, seguindo o clichê, sendo essa a única certeza da vida, poucas pessoas estão preparadas para garantir que se trate de um processo tranquilo (na medida do possível, evidentemente). Em um ranking global elaborado pela revista inglesa The Economist em 2015, o Brasil ocupa a 42ª posição, atrás de países como África do Sul, Uganda e Jordânia, dentre as 80 nações que oferecem as melhores condições a familiares e pacientes que lidam com doenças terminais. Isso quer dizer que além do fato de não se viver bem em muitos desses locais, também não se falece bem neles. Para chegar à essa classificação, foi avaliada a qualidade de cuidados paliativos ao redor do mundo, pela seguinte definição do termo, estabelecida pela Organização Mundial de Saúde: são as “abordagens ou tratamentos que melhoram a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameacem a continuidade da vida”. É a dificuldade em lidar com essas situações dramáticas que motivou a médica geriatra paulistana Ana Claudia Quintana Arantes a escrever A Morte É um Dia que Vale a Pena Viver (Casa da Palavra, 192 páginas, 29,90 reais), lançado nesta semana.

Ana Claudia Quintana Arantes, de 48 anos, dedicou suas duas décadas de profissão à área dos cuidados paliativos. Sua motivação surgiu justamente por notar, durante a faculdade, a falta de interesse de professores e colegas pelo assunto. No livro, a autora destaca como os médicos costumam se atentar mais em sedar, apenas, os pacientes, para evitar transtornos, do que ajudá-los, de fato, a encarar a espera pela morte. Isso mesmo que apenas 3% dos casos terminais precisem da prescrição de analgésicos.

Abaixo, VEJA relata casos de doentes terminais – e de como eles lidam com suas condições – e seleciona dicas elaboradas por Ana Claudia para antever e se preparar diante da expectativa da morte.

1ª cuidado: não seja um “zumbi existencial” 

A geriatra usa o termo “zumbis existenciais” para definir indivíduos que vivem sem a noção de que um dia irão morrer. “As pessoas se veem como imortais. O efeito é que noto, todos os dias, pacientes, falecendo, que demonstram só ter dado valor à própria vida quando descobriram que estavam prestes a perdê-la”, diz Ana Claudia.

O primeiro cuidado, portanto, antecede o diagnóstico de uma doença terminal. É precisar realizar exames de rotina, exercícios físicos, dormir oito horas por dia e todas aquelas típicas recomendações para se levar uma vida produtiva e feliz – com a consciência de que isso não vai evitar que a vida chegue ao fim. Assim, o senso de mortalidade acaba por preparar as pessoas para o momento, inescapável, de encarar a morte.

Completa Ana Claudia: “Parece que a maioria só resolve procurar por uma vida melhor, saudável, bem quando se depara com a perspectiva da morte. O que deveria ocorrer é todos estarmos sempre atentos, dando nosso melhor, para recebermos bem nosso fim quando ele chegar”.

2º cuidado: sempre há algo a fazer

No livro, a autora destaca como usualmente pacientes terminais e familiares se deparam com a afirmação “não há mais nada a fazer”. Para ela, no entanto, o principal é pensar na pessoa com a doença, e não só na cura do mal, por si só. Para tanto, a partida é não aceitar a contestação negativista e buscar formas de ajudar o indivíduo a batalhar contra suas aflições durante todo o processo de cuidados paliativos.

O primeiro passo é sanar o sofrimento físico, como falta de ar e desconfortos em geral. Quando não há mais dores, contudo, surgem os desafios emocionais. A exemplo de auxiliar o paciente a se resolver com sua religiosidade (mesmo quando se trata de um ateísta) e promover as últimas despedidas e desejos. “Há casos em que não tem remédio, mas pelo menos existem maneiras de preparar o paciente para conviver melhor com sua enfermidade”, explica Ana Claudia.

É exemplar o caso da paranaense Rosary Guimarães, de 87 anos (nas galerias de fotos desta reportagem, confira histórias de doentes que passam por cuidados paliativos). Há um ano, ela chegou na clínica de Sainte-Marie, em São Paulo, com a previsão de que só teria mais 90 dias de vida. Com um tumor na região torácica, não conseguia se levantar da cama, andar, nem realizar movimentos mais suaves.

“Não desisti, sabia que não era meu momento e que havia o que fazer”, relatou Rosary. Passado um ano, após a aplicação de remédios, ela já não é tida por médicos como em estado de terminal. Poderia, inclusive, retornar à sua casa. Entretanto, os familiares escolheram deixá-la na clínica, por lá Rosary ter disponível atendimento médico 24 horas, em situações emergenciais.

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04/09/16