Nova modalidade de sequestro usa estacionamento da Prefeitura como cativeiro e faz estrangeiros reféns

Boliviano foi vítima de bando na última sexta. Antes, libanês havia sido feito refém

O sequestrador Mauro Sérgio de Jesus.
O sequestrador Mauro Sérgio de Jesus.

Na última sexta feira (22), um comerciante boliviano de 68 anos da região do Pari foi sequestrado e mantido refém por mais de 12 horas no interior de um carro estacionado no Pátio do Pari, mercado de hortifrutigranjeiros na região cerealista do centro e administrado pela Prefeitura de São Paulo.

Um dia antes, na quinta-feira (21), o comerciante recebeu ligação de um suposto cliente solicitando um encontro na residência do estrangeiro para comprar quinoa, cereal andino comum na região da Bolívia e do Peru. Suspeitando da ligação, ele não aceitou encontra-lo na casa e marcou o encontro para o dia seguinte, na Praça do Coco, no Pari, às 10h.

No encontro, após acertarem a venda, o comprador informou que o dinheiro estava no interior de um carro estacionado no mercado em frente, o Pátio do Pari, administrado pela Prefeitura.

Ao chegar ao veículo o comerciante foi golpeado na cabeça por vários homens. Desacordado, foi colocado no interior do carro, onde acordou amordaçado, com capuz e pés e mãos amarrados. Os criminosos tomaram R$ 800 dele, além de cheques e pertences do comerciante.

Durante mais de 12 horas, o comerciante foi agredido e os criminosos pediram resgate de R$ 100 mil aos familiares, que recorreram à Delegacia Antissequestro. Policiais passaram a orientar as negociações por telefone.

Neste intervalo, o comerciante descobriu, por meio das conversas dos criminosos, que o sequestro deveria ter acontecido no mês anterior. E que havia sido armado por um conhecido dele.

Utilizando muitas drogas e bebidas, os sequestradores passaram o tempo todo aterrorizando a vítima e batiam nele cada vez que falava em espanhol.

A tortura psicológica chegou ao ponto de, por volta das 21h, fazerem ele descer do carro encapuzado pensando que seria morto e jogado ao rio Tamanduateí. Neste momento, o refém diz ter pedido aos sequestradores:

— Por favor, me mata, acaba com isso, mas me deixa ligar para me despedir da minha família.

Mas ao descer do carro, soube que estava em frente à própria casa, onde os criminosos resolveram ir à procura de dinheiro. Achavam que o local estava vazio.

AS filha do refém e o namorado, no entanto, estavam em casa. Escondidos no segundo andar, junto das netas menores de idade, ligaram para a polícia que já monitorava a região. Os policiais libertaram o refém e prenderam um criminoso. Outros fugiram.

O sequestrador

A polícia descobriu que o sequestrador era Mauro Sérgio Alves de Jesus, de 43 anos, um criminoso reincidente condenado por roubo, tráfico de drogas e porte de munição — as penas somadas passam de 11 anos em regime fechado.

Mauro também responde a processo na Justiça por tentativa de homicídio. Em 2012, foi preso em flagrante com R$ 2.000, grande quantidade de maconha, cocaína e crack, além de embalagens, balança, assadeiras e cinco cartuchos calibre 380 na porta da sua casa.

Crimes anteriores

A vítima, muito abalada com o acontecido, acredita que a quadrilha tenha praticado muitos sequestros motivados pelo hábito que comerciantes e trabalhadores bolivianos, peruanos, chineses e outros estrangeiros têm de manter dinheiro vivo em casa.

Isso confirma informações extraoficiais da polícia, já que dois meses atrás, aproximadamente, outros dois comerciantes libaneses da mesma região foram alvos de sequestros. Na época, dois integrantes da quadrilha foram presos e outro foi identificado. Acredita-se que todos eles integram a mesma quadrilha especializada em atacar estrangeiros.

O refém resgatado neste último sequestro alerta que não adianta pagar, porque as vítimas ficam sempre reféns dos criminosos.

– Tem que chamar a polícia, eles sabem lidar com essas situações – disse o boliviano.

O delegado Rodolpho Chiarelli Junior da 1ª Delegacia Antissequestro da Polícia Civil, que chefiou as negociações e o resgate do refém, não pôde dar entrevista.

Por meio de nota, a Divisão Antissequestro do DHPP afirmou que “um homem foi preso acusado de sequestrar, no último dia 22, um comerciante de 68 anos, na Zona Cerealista, no Centro da Capital Paulista”.

De acordo com o texto, “durante as negociações, a vítima ofereceu uma certa quantia que tinha em casa e três suspeitos compareceram ao endereço”.

“Um foi preso pela polícia e dois estão foragidos, prossegue a nota. “A vítima foi solta e as investigações continuam. Mais detalhes não podem ser divulgados para não atrapalhar o andamento do inquérito.”

Em nota, a Prefeitura afirmou que o serviço de segurança do local usado como cativeiro é realizado por 90 funcionários de uma empresa particular, com monitoramento 24 horas por dia. A gestão municipal disse ainda que questões sobre possíveis ações criminosas devem ser encaminhadas à polícia (subordinada ao governo do Estado).

noticias.r7

28/07/16